domingo, 13 de setembro de 2009

'Sou meio punk, devolvo o nojo ao mundo', diz André Sant'Anna

Mesa 'Do abjeto ao belo na nova ficção' abre Bienal do Rio.
Evento acontece no Riocentro até o próximo dia 20.

Do G1, em São Paulo

Os escritores Lourenço Mutarelli, André Sant'Anna e Ana Paula Maia participaram nesta quinta-feira (18) do primeiro debate do Café Literário nesta 14ª edição da Bienal do Livro Rio. O tema da conversa foi "Do abjeto ao belo na nova ficção".

Sant'Anna, autor dos romances "Amor" e "Sexo", diz que a relação do seu trabalho com o abjeto é uma reação. "É uma coisa meio punk, de devolver ao mundo o nojo que ele me causa".

Mutarelli, autor de "Natimorto" e "O cheiro do ralo", se diz mais próximo do tema. "Prefiro pensar não que estou devolvendo - mas estou. Acho que tenho uma atração pelo abjeto, dediquei parte da minha existência voltando atenção ao abjeto, tentando entendê-lo."

Maia também acha que essa relação é mais natural em seu trabalho. "O abjeto compõe o real, e flui naturalmente no meu texto". Ela destaca as reações dos leitores a livros como seu "Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos", que conta a história do abatedor de porcos Edgar Wilson.

"Tem gente que ficou chocada, diz que ficou sem comer carne. Já a minha mãe ria, entendendia como humor negro". Maia ainda mostra que o belo aparece apesar do cotidiano estranho dos personagens do seu livro. "A amizade, lealdade, companheirismo daqueles homens. O belo está aí, em outra camada do livro".

'Desencaretando' Sandy

Sant'Anna afirma, porém, que sua literatura não procura simplesmente chocar. "Um dos meus contos é uma carta da Sandy para os pais, ela estava saindo de casa. Ainda era virgem na época, e meu texto mostrava ela 'desencaretando', deixando de ser virgem, experimentando maconha. É algo legal, acho que é algo que ela iria querer - os pais, o empresário não gostariam, mas ela gostaria".

Vindo dos quadrinhos, Mutarelli diz que o humor brasileiro preocupa-se em "rir do outro". "É importante rir de si mesmo. E não dá para não rir".

Lourenço Mutarelli diz que deve publicar novo quadrinho em 2010

Autor participou de mesa de debate na Bienal do Rio
Evento acontece no Riocentro até o próximo dia 20.

Lourenço Mutarelli (com o microfone) participaa do Café Literário da XIV Bienal do Livro do Rio ao lado dos escritores Ana Paula Maia e André Sant'Anna.

O escritor Lourenço Mutarelli disse que deve voltar a desenhar quadrinhos em 2010. Durante a mesa "Do abjeto ao belo na nova ficção", realizada nesta quinta-feira (10) na Bienal do Livro do Rio de Janeiro, Mutarelli disse que "não queria fazer mais quadrinhos por uma questão de hombridade".

"Mas eu recebi uma proposta interessante, tem pessoas me seduzindo", completou. "Ano que vem talvez eu lance um álbum. Não queria voltar, mas talvez eu volte. E é claro que vou fazer com a mesma empolgação que meus livros".

Movimento ainda é fraco nos corredores da Bienal

O primeiro dia da XIV Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro, inaugurada no início da tarde desta quinta (10), no Riocentro, teve os pavilhões e estandes do Riocentro pouco movimentados.

Foto: André Durão/ G1

Visão geral do primiero dia da XIV Bienal do Livro do Rio de Janeiro: vazia.

De acordo com a assessoria de imprensa do evento, o dia de inauguração é sempre considerado pelos organizadores o de menor fluxo de visitantes. Ainda segundo a assessoria, a quantidade de ingressos vendidos, ainda não avaliada oficialmente, deve superar o do primeiro dia de 2007.

‘Não confie no Twitter’, diz principal crítico da web 2.0

O escritor Andrew Keen.

“Eu não acho que as pessoas deveriam usar o Twitter como fonte de notícias. Recentemente eu escrevi de brincadeira no Twitter que a Microsoft havia comprado o Twitter, e de repente todo mundo estava falando da suposta venda”. Grande usuário do serviço de microblogging, o jornalista e escritor inglês Andrew Keen não poupa nem a febre mais recente do mundo on-line de suas críticas.

Autor do livro “O culto ao amador”, Keen é um dos críticos mais ferozes da chamada web 2.0 – ou seja, dos sites que se baseiam em conteúdos gerados pelos usuários. Sua tese principal é de que a “democratização” da internet estaria minando a qualidade da informação disponível na rede, substituindo produtos culturais (notícias, filmes, músicas) de alta qualidade por conteúdo “pobre” criado pelos usuários comuns.

“Nunca disse que não deveríamos usar a internet – eu a uso como qualquer um. O Twitter é uma forma pública do e-mail, é uma boa maneira de ‘pensar em voz alta’, mas não publicaria nada com alguma seriedade ali”, explica o escritor em entrevista por telefone ao G1. Keen está no Rio de Janeiro, e participa de um debate às 17h desta sexta-feira (11) na Bienal do Livro.

“Isso (a brincadeira que virou ‘notícia’) reflete o fato de o Twitter não ser ‘mediado’, e é por isso que não se deve acreditar no que se lê ali. Quando acontece algo no mundo, as pessoas procuram fontes confiáveis de notícias, pode ser a CNN, a BBC ou o 'New York Times', ou talvez algum blog. As pessoas sempre pensam em substitutos, o que vai substituir o quê. O Twitter não vai substituir nada. É um site diferente, é bom, é divertido, provavelmente tem um futuro, mas certamente não é o futuro da imprensa”, explica.

O próprio conceito de web 2.0 está caindo em desuso, e muitos especialistas em internet têm deixado de usar a expressão – Keen é um deles. “Existia a ilusão de que sites com conteúdo gerado pelos usuários conseguiriam criar um substituto econômico viável através de anúncios, mas isso não aconteceu. O YouTube agora tenta exibir filmes tradicionais, como o site NetFlix, ao invés de vídeos gerados pelos usuários. A Wikipédia recentemente decidiu usar mais fontes editoriais. A ‘revolução radical’ do conceito de conteúdo gerado pelos usuários acabou, não deu certo”.

Ele diz que o modelo “mais atraente” para a internet nos últimos tempos é o de “web em tempo real” – conteúdo gerado e transmitido ao vivo, como é o caso do Twitter. “É sobre isso que todo mundo está falando, investidores, especialistas. Se você for a um encontro de investidores e falar sobre web 2.0 provavelmente vão te expulsar da sala”.

‘Freemium’

Outro conceito recente que chama a atenção de Keen é a ideia da “internet gratuita”, onde o conteúdo não é cobrado do consumidor final – tese principal do livro “Free” (“De graça”, em inglês), do editor-chefe da revista “Wired” Chris Anderson.

“Concordo com Anderson em alguns pontos. Acredito que a economia do ‘freemium’, quando você dá o conteúdo básico de graça e cobra por serviços adicionais é provavelmente o futuro da mídia”, imagina, mas cita alguns problemas, usando o site de streaming de música Spotify como exemplo.

“O desafio principal de sites como o Spotify não é ser popular. Ele é claramente popular, é um serviço muito atraente – assim como o YouTube. Mas o desafio é: o Spotify vai conseguir transformar sua popularidade em receita? Ninguém quer pagar por conteúdo on-line. O futuro de serviços do tipo ‘freemium’ como o Spotify depende de que 10, 15 ou 20% dos usuários queiram pagar por serviços extra, por exemplo, US$ 9,99 por mês para usar a ferramenta em seu iPhone. Eu não estou convencido de que os usuários querem isso”, afirma. “A diferença entre eu e Anderson é que ele é muito otimista, e eu sou mais pessimista”.


Ele vai mais longe, dizendo que a economia do ‘freemium’ está ‘minando a qualidade dos bens culturais’. “Nesse modelo o artista (músico, cineasta) precisa passar a ser um marqueteiro de si mesmo. Antigamente eles conseguiam garantir a sua renda através da venda de seus produtos, hoje eles têm que dar esse produto de graça e se vender de outra maneira, seja adicionando anúncios aos seus produtos ou vendendo palestras ou shows. Penso em músicos como os Beatles, Rolling Stones, Bob Dylan ou Bruce Springsteen, como eles sobreviveriam nesta economia? Nesses casos, as gravadoras investiram uma quantidade significativa de recursos no talento deles. O problema com a economia do ‘freemium’ é saber quem vai investir em talentos”, resume.

Pirataria


Essa dificuldade para os artistas se sustentarem tem uma raiz – a troca de arquivos (ou pirataria) de músicas e filmes na internet. “Recentemente entrevistei Milos Forman (diretor de ‘Estranho no ninho’ e ‘Amadeus’), e ele acredita fortemente que a única maneira de sustentar a indústria cinematográfica é lutando contra os ‘ladrões’. Eu simpatizo com essa posição, mas acho que temos que pensar em outras questões”.

Rickard Falkvinge, fundador do Partido Pirata sueco.

Keen diz concordar com as medidas duras que alguns governos na Europa e agora nos EUA estão tomando contra os casos de pirataria on-line. “Eu simpatizo com a ideia de que, na Grã-Bretanha, o governo descubra as pessoas que estão roubando e tire os privilégios de rede, diminua a conexão dessas pessoas. Eu acho isso apropriado, porque essas pessoas estão fazendo algo errado”, afirma, chamando a cultura de troca de arquivos de “saque cultural”.

Porém, o escritor morde e assopra, dizendo que as empresas donas do conteúdo partilhado também têm que fazer a sua parte. “Acho que deveria existir uma evolução cultural em termos de propriedade intelectual e na maneira em que as gravadoras, estúdios e editoras apresentam seus conteúdos on-line. Eles devem ceder um pouco”.

Keen dá muita atenção às discussões sobre direitos autorais na era digital. Na sua opinião, é “uma das questões mais significativas do começo do século XXI”, e defende a politização do debate, incluindo a nova onda de Partidos Piratas que começa a se espalhar pela Europa

“O sucesso do Partido Pirata, especialmente na Suécia, reflete essa politização. Creio que eles têm que ser cuidadosos. Precisam deixar claros os limites desse saque cultural que está ocorrendo. Devem dizer: ‘nós não estamos envolvidos com o roubo intelectual, nós acreditamos que isso precisa ser um modelo de negócios. Mas ao mesmo tempo nós queremos uma reforma nos direitos autorais, estamos preocupados com a questão da privacidade na era eletrônica’. Se quiserem participar do debate político ao invés de serem apenas uma piada, precisam afirmar claramente que as pessoas devem respeitar as leis”, aconselha.

Além do debate na Bienal, o escritor vem a Brasil com a intenção de escrever um artigo sobre as novas empresas de internet nacionais, e está pedindo ajuda aos seus leitores. “Estou interessado nos desafios dos jornais no Brasil, se os blogs estão substituindo os jornalistas, o que está acontecendo na indústria musical, na indústria cinematográfica. Eu gostaria de pedir às pessoas para me contatar no Twitter, com histórias interessantes, com exemplos do que tem mudado no Brasil”.